Floresta Negra

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Floresta Negra Apresenta...

Harlequin - Parte XI

Published by Tyr Quentalë under on 11:39 AM
Desesperado pedido gritado em cruel desatino, qual lança perfurava-lhe o sofrer, prostrando-o ao chão sem compreender. Não seria ela, sua doce Colombina, aquela que um dia lhe sorrira, envolvendo-o em palavras angelicais? Não seria ela sua dama, que o envolvera em desejos e sonhos, de juras declaradas com o sempre que agora se rompia? Ó cruel destino que ali o prendia com grilhões pesados em seus músculos machucados. Vivera a ilusão da qual não queria acordar, que lhe sacudissem o corpo com um violento despertar. Não! Não! Aquela débil imagem, tão fraca e tresloucada, não poderia ser a que um dia passara a imagem da mais forte das vadias. Sim! Sim! Vadia ela se tornara, em seu pranto miserável, em seus braços pútridos que envolviam aquele corvo desgraçado. Ave de mau agouro, quantas donzelas mais surrupiarás dos corações alquebrados. Tuas cores não existem na vida daqueles que persistem. Saia! Vá-te embora de minha vista, leva contigo esta carniça. Esta sombra que não me pertence mais.
Em frio semblante a serenidade invadira-lhe o olhar, via a imagem borrada, alquebrada daquela que um dia fora a mais bela das belas diante de seu olhar. Sorria de modo fraco, sentindo as dores do mal amado, sabia como encerrar o sofrimento que os envolvia cada vez mais. Ela, tão frágil Colombina, sofria com a liberdade, clamando em seu olhar por um pouco mais de insanidade. Fechara os olhos no entristecer do momento, escutando a voz que lhe pertencia, cravando os dedos à suave e tenra carne. Gritos preenchiam a noite em dor e lascívia, em horrores e prazeres, ao carregar embora seu negro coração.
Prantos derramados no vazio que aumentava, enquanto canções eram cantadas no rodopiar de um rufião.
- Alegria! Alegria! Este rufião irradia! Sou o vento do norte, sou a alegria, sou as cores que já tiveste um dia, mas se achas que minha cor seja maldita, saiba que até mesmo dela tu necessitas.
Risos ainda podiam ser ouvidos, com o romper da escuridão. E não muito distante da varanda ela se encontrava com o olhar perdido, desolada, desconsolada e nada mais.
- O Rufião jamais te pertencerá, minha doce Colombina. Assim como jamais serás minha como pertenceste a ele... Um dia...

Harlequin - Parte X

Published by Tyr Quentalë under on 9:09 AM
Era chegado o momento que ele cerraria as cortinas e um basta daria à dor contínua. Deleitava-se com as dores dos amantes, mas deleitava-se mais ainda com as dores que o possuiria, pois o mundo a ele pertencia e tolos eram aqueles que achavam que lhe prenderiam.
Sim, ele buscava sua eterna Colombina, vestindo outras damas com o sorriso que apenas a ela pertencia. Vivia por um tempo em total devoção, mas o amargor que sentia o possuía sem compaixão.
Quantas ditas colombinas entraram em sua vida, com seus olhares arrogantes e sorrisos faceiros, dizendo ao rufião que seriam melhores e que não causariam as feridas que as outras um dia lhe deram.
Pierrot clamava por um sangue e deixava-se mergulhar em ciúmes que crescia fazendo rosnar o direito de posse que a ele pertencia.
Colombina ensandecida, já nem mais sabia o que acontecia. Rainha de todos os mártires, arranhava a pele e gritava que todos a ela pertenciam.
O rufião em negra cor então se aproximou.
- Não chores mais, Colombina. Não chores mais clamando por liberdade, deste corpo pequeno e fútil que conheceu a grandeza do mundo que carrego. Não chores mais, Colombina. Não chores mais. Abra teu peito para mim e clame por um fim. Implore para que eu retire o coração enegrecido que engoliste, pois em teu anseio, desejando que a ti eu amasse em total devoção, percebeste que teu amor não seria suficiente para este rufião.
- SAIA DE CIMA DELA! – Gritou o Pierrot ao perceber a morte se aproximando de sua amada donzela. – ELA ME PERTENCE!
- NÃO! – Colombina gritava segurando o rufião por cima dela – Jamais se afaste de minha vida. Jamais desapareça meu rufião. Meu Harlequin.
A saudade apertaria e a dor assolaria o peito dos amantes que ali sentiam as verdades rasgarem-lhes as faces, retirando-lhes as máscaras, enquanto em semblante frio e sem vida o rufião sabia aonde chegaria.
Pois chegada era a hora de saciar sua dama faminta. Sua verdadeira Colombina.

Harlequin - Parte IX

Published by Tyr Quentalë under on 12:14 PM
Ele não percebia o corvo que ali se resumia. Os olhos fixos perscrutavam a alma do abatido e seu avançar faminto poderia aquela vida ceifar. Olhos sombrios que mergulhavam à alma do futuro falecido, faiscavam em sadismo com todo o ocorrido e a voz gélida mortífera murmurou.
- Não compreendeste Pierrot? Não compreendeste o egoísmo instaurado em seu desejo sofrido? Desejas que um dos três sangues seja vertido, pois tua alma sabe no que realmente fomos envolvidos. Vives um amor doentio, pois satisfaz a dama em seus desejos repentinos, mas nela reside a fúria da natureza, a mesma fúria que arrancara meu coração.
Flamejantes olhos erguiam-se incontidos do desejo mórbido de extirpar aquele sorriso. Sim! O rufião, em agourenta forma, gralhava-lhe aos ouvidos de forma vitoriosa, imputando à Colombina a imagem pavorosa.
- Ceifadora de vidas, de sonhos e esperanças, eis que bela donzela carrega com ela pesados grilhões. E tu em patético orgulho serias capaz em heróico ato, ceifar tua vida em injusto ato.
O corpo do amante que tanto fora apunhalado às palavras de sua amada Colombina, deleitava o rufião em tamanha dor do olhar que o entregava sem pudor.
- Ah! Meu tolo Pierrot, tu encontrarás alguma paz... Mas tua paz durará por pouco tempo e amaldiçoarás esta noite maldita ao que clamaste por um dos três sangues que devias ter escolhido.
Não mais sabia o Pierrot se aquelas palavras confortariam tua alma ou se um dia arrepender-se-ia de ter clamado pela traiçoeira noite que banqueteava os desamores daquele trio.

Harlequin - Parte VIII

Published by Tyr Quentalë under on 7:53 AM
Correntes e grilhões, arrastavam-se pela casa. Sons de um mundo sombrio em lamuriares de dor. Gritos, risos, murmurares tresloucados. A beleza intocável quebrantara de pavor. Pavor insano que lhe botava uma máscara, trazendo gritos e clamores. Amaldiçoava-se a pobre amada que trancafiada, implorava, desejava por uma liberdade que a enclausurara da vida ilusória que antes levava.
Cada bater, cada grito. Cada arranhar, cada martírio. Cada vez que o nome do rufião era gritado, aos prantos e choro, uma apunhalada ela dava ao coração esfacelado do Pierrot. As costas dele se encontravam a porta selada e seus olhos fechavam-se na intensidade dos sentimentos que esmoreciam seus pensamentos.
Ao findar da noite quando todos em vigília observavam o recanto da insanidade e do amor, prantos baixos já não mais buscavam pelo rufião, mas pelo Pierrot que em silêncio sofria e remoia seu rancor.
- Ó escura noite que adentrara este lar, partas logo para que eu possa descansar. Leva contigo este reflexo distorcido e trás de volta a Colombina que eu amava. Trás de volta o coração que a ela pertencia. Não me deixes com esta sombra de cores disformes que amedronta e fere a alma. Acorde-me deste pesadelo, ó escura noite. Sussurre a este amante, quais dos três sangues desejas para te saciardes?
- Fala-me logo, ó traiçoeira noite, para que não mais haja sofrimento e dor. Fala-me logo e acalente esta alma que não mais reconhecerá o semblante que aguarda trancafiado por sua voz. Fala-me... Eu suplico... Quais dos três sangues desejas que seja derramado, ó traiçoeira noite?

Harlequin - Parte VII

Published by Tyr Quentalë under on 5:32 AM
Antes tivesse se contido nas palavras e não ter desafiado o rufião. Ele lhe entregara o coração em plena devoção e agora era ela quem se encontrava acorrentada nos sentimentos que a perturbavam.
O amor de Pierrot a completava, ao menos era assim que ela achava, mas algo a queimava; consumia-lhe em arranhões constantes, em desejo profundo de agonia e dor.
Não.
O Amor de Pierrot não mais era suficiente e Harlequin a provocava. Trazia delírios à sua mente, de beijos dormentes. Seus olhos a enganavam mudando faces, corpos e tudo o mais. Não mais sabia ao certo de como seu corpo se satisfaria, pois desejava liberdade; desejava muito mais.
Ria e se maquiava, botando-lhe uma máscara à sua cara. Não mais conseguia se encarar ao espelho ao ver insanos desejos. Chorava e amaldiçoava a liberdade, para chorar mais uma vez desejando mais liberdade.
Girava em giros rodopiantes, tendo o coração de Harlequin pulsando junto ao seu.
Gritava a negativa aos pensamentos errantes, pois era Pierrot que lhe dava segurança.
Harlequin era o fruto da incerteza; silenciosa zombaria aos seus sentimentos despedaçados e inseguros do que ela realmente sentia.
Não mais era ela quem desafiava o rufião, mas sim a ela o desafio retornara no fogo de uma paixão.
E onde estava ele, se não roubando a sanidade de outras donzelas mais que pintavam as ruas de sangue?
Onde estava o rufião que agora roubava os corações para saciar o vazio do peito frio?
- Por que não sais de minha mente? Por quê?

Harlequin – Parte VI

Published by Tyr Quentalë under on 4:29 AM
Por onde quer que andassem, lá se encontrava o rufião. Giros e sorrisos enchiam-lhe de vida, roubando o rubor das faces incautas das donzelas que o rodeavam. Um tigre, uma sombra, garras e nada mais. Pierrot enchia-lhe o coração de amargor, pois Colombina era flagrada espreitando o errante. Maldito fosse o espírito do vento e da liberdade, pois roubava de sua amada, pensamentos e outras coisas mais. Harlequin gargalhava com gosto prazenteiro, puxando as moças de modo fagueiro, juras eram feitas aos pés do rufião que as dispensava sem menor sofreguidão.
- Harlequin!
Um dia escutaram e perante o triângulo uma moça se matara. Arrancara de seu corpo a vida jovial, em desespero infundado do amor não recebido. Colombina estremecera diante de tal ato e Pierrot mais uma vez ficara pasmado. Com calma Harlequin se aproximara da vida ceifada, abraçando o corpo da fria donzela; de seus olhos lágrimas escaparam em angústia e dor.
- Vê? O amor do rufião é volúvel, amada donzela!
Colombina sentia repulsa diante de tais palavras e Harlequin erguia o rosto, gritando em profunda dor.
- Quão forte eu queria que fosse teu amor. Quão tola foste em amar-me.
Harlequin abaixava o rosto e acariciava os traços de quem se entregara de forma errada e com trêmulos dedos ele ainda recitava.
- Não compreendeste em minhas palavras que meu amor jamais te pertencera? Não compreendeste que minha liberdade em amar já não mais se encontra nesse peito oco de sentimentos. Quão tola foste em amar-me.
Abraçava o corpo fortemente e seus olhos faiscavam dormentes. Harlequin mais uma vez olhava os profundos verdes que ali os observava.
Inveja... Foi o que a matara. – Aqueles olhos sorriam em pura devassidão.

Harlequin - Parte V

Published by Tyr Quentalë under on 2:35 PM
Seus olhos enegrecidos ardiam intensos, não sabendo se de fúria, ódio, ciúmes ou paixão. Os pensamentos rasgavam-lhe o peito em sua incompreensão. Firmava as mãos ao corpo adormecido, trêmulo de raiva, torpe em desespero, rogando à mente pragas ao colorido rufião.
Afasta, aos poucos, as mãos ao deitá-la, por vezes pensando na forma de extirpar da vida de sua amada o mal que se apossara de sua atenção, mas havia visto em assombro desmedido o rufião arrancando o próprio coração.
Mergulhava em dor e sombras, deixando que a noite o abraçasse, sendo embalado em medos e grilhões. O que houvera com sua amada? O que?

– Pierrot? – falara em voz baixa, vendo que o amado na cama não havia deitado. O sol radiante chamava os amantes e risos se espalhavam à sacada. Vendo o amado atormentado em sereno sono, correra ao sabor do vento. Apressara-se em fechar as portas escancaradas, e assombra-se ao ver quem lá embaixo estava.
Beijava a mão de uma nova donzela, rodeando-a com palavras e charmes. Via-o deixando-a com as maçãs coradas e estremecia ao vê-lo medindo-a sob o olhar. Rodeava-a como felino traiçoeiro e em assalto rouba-lhe um beijo. Seu coração não agüentara, pois o beijo roubado fora de outra e ao que os olhos de Harlequin se ergueram, teve certeza naquele momento, que seus olhos faiscaram em intenso rubro e que seu sorriso era sarcasmo.

Batia a porta desconcertada Colombina, mas desconcerto não era o que lhe atormentava, deixava as mãos deslizarem à cintura da mais jovem donzela, contando lascívias e pura depravação. Seus olhos se mantiveram firmes à sacada e suspirando abaixou o olhar. Pobre donzela que ali era enganada, pois de seus lábios e suas mãos ganharia apenas provocações e pondo-se ao lado murmura à sua nova aquisição.
– Até onde irias, movida pelas emoções? Darias a vida, alma ou até mesmo seu coração? Serias capaz de fazer juras eternas, dar seus mais nobres sentimentos, tornar-se um animal sedento, faminto e sombrio? Até onde irias, movida pelas emoções? Serias capaz de matar ou se enjaular? Tornar-te-ia sombra, guardiã, assassina e nada mais?
Assombrada gira a donzela, com seus olhos arregalados, via ali as cores se desmanchando predominando o verde e o preto aos trajes.
– Pobre Harlequin! Não mais és sorriso, alegria ou serenidade. Invejo aquela que roubara teu coração.
O rufião olhou a jovem de soslaio em semblante frio e sem sorrisos.
– Invejo... E temo...